A vida invisível de Eurídice Gusmão: independência ou morte

a vida invisível capa

A vida invisível de Eurídice Gusmão não teve um percurso fácil. A obra da carioca Martha Batalha contava com a chancela de uma das agentes literárias mais poderosas do país (Luciana Villas-Boas, da Villas-Boas & Moss) e ainda assim não conseguiu uma abertura no mercado editorial nacional para ser publicada.

Martha, jornalista e fundadora da editora Desiderata, comprada pelo Grupo Ediouro 2008, diz ter sofrido muito com as recusas. No entanto, o romance situado no Rio de Janeiro entre as décadas de 40 e 60, talvez por cheirar à bossa-nova ou por relembrar um Rio que todos gostam de ver, atraiu a atenção das editoras internacionais. França, Espanha, Portugal e Holanda foram os primeiros países interessados. Quando os direitos do livro voltaram ao mercado brasileiro, a Companhia das Letras não pensou duas vezes e arrematou a oferta.

A vida invisível de Eurídice Gusmão e a independência da mulher como norte

Eurídice e Guida são irmãs: opostos complementares por assim dizer. Ambas estão condicionadas a serem mulheres da sua época e fazem escolhas impetuosas e metódicas acreditando que serão mais felizes. No entanto, as suas irmãs irão percorrer um longo caminho até entenderem quem são.

Apesar dos caminhos longos, A vida invisível de Eurídice Gusmão é uma novela curta: 192 páginas de Eurídice aprendendo a ser ela mesma, lutando como era possível contra o patriarcado. Mas a história da protagonista corre paralela com as outras mulheres da narrativa: dona Zélia, Das Dores, Filomena, e a irmã Guida. A invisibilidade da mulher na sociedade é contundente e parece atemporal: quantas mulheres que pensam dessa forma ou que vivem nessas condições ainda estão por aí?

Fica claro que Eurídice busca fazer mais com o que lhe é dado, mas tem uma rotina pré-programada e precisa dar conta dela. O combate é silencioso, nas horas em que está sozinha: escrever livros de culinária ou abrir um ateliê de vestidos. Com todas as marés sempre a devolvendo à praia do machismo e da inércia quando os seus planos são descobertos, o leitor sente o desânimo junto com a protagonista.

“Era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar.”

Tendo como pano de fundo a Tijuca, o Flamengo, o Centro da cidade do Rio de Janeiro, quase é possível evocar as fotos de família de mães, avós e bisavós. Os bondes e as mercearias, as roupas e os rádios sempre ligados. Com um ritmo contundente, a narrativa – e a vida invisível de Eurídice Gusmão – apresenta a história de uma mulher na busca da sua independência: financeira e emocional. Com humor, ironia e muita perspicácia, dá para acompanhar as vitórias e alegrias, mas também as violências e a injustiça.

Numa realidade onde hoje se discute a interseccionalidade e a sua importância na análise dos direitos das mulheres, talvez a visão da obra seja um pouco rasa ao tratar de alguns temas. Ainda assim, a leitura é agradável e divertida.

O livro virou filme numa adaptação cinematográfica de Karim Aïnouz e venceu a seção Un Certain Regard no último Festival de Cannes.

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