Afetos ferozes e a potência do feminino

“Naquela tarde, pensei: Uma de nós vai acabar morrendo por causa desse afeto”

Se fosse preciso escolher um único trecho da obra de Vivian Gornick para tentar resumir a potência da narrativa, talvez o destaque acima fosse um bom resumo. Afetos Ferozes é sobre isso: o amor numa potência tão forte, tão definitiva na criação e manutenção dos laços afetivos que chega a sufocar, que marca e traça o caminho de todas as outras relações ao longo da vida.

A obra de Gornick foi lançada pela primeira vez em 1987 – vale dizer que segue sendo extremamente atual– e foi reeditada recentemente no Brasil pela Todavia. O livro é uma biografia, ou uma colcha de retalhos de memórias, que vai e volta no tempo para contar a história da própria Vivian e da sua mãe.

Afetos Ferozes: questão de opinião

A narrativa utiliza os passeios da dupla pelas ruas de Nova York para buscar os acontecimentos do passado que se encontravam na esfera privada. É como se o passeio arejasse as lembranças, relembrasse as tensões, para que as mesmas pudessem vir à tona.

Mesmo quando a autora conta que saiu de casa, mesmo quando ela conta das suas experiências amorosas da vida adulta é como se ela ainda contasse sobre a relação que tem com a mãe.

“Andar nos faz mostrar o melhor de nós. (…) Durante essas caminhadas, não sentimos amor uma pela outra; é comum estarmos discutindo, mas mesmo assim saímos para andar”.

As caminhadas não revelam o amor ou a conciliação, elas revelam os afetos ferozes que dão nome a obra e as diferenças que em alguns momentos encontram nuances de trégua. O atrito entre mãe e filha parece ser o impulso vital da escrita da autora, no entanto esse atrito não carrega em si traços de uma possível redenção desejada pelo leitor. Soa quase frustrante para quem torce pelo caminho do meio perceber que ali não haverá uma cena clássica de beijos, abraços, lágrimas e perdão. O livro não é sobre isso, ele é sobre a potência feminina nos afetos.

“Vivi naquele prédio entre os seis e os vinte e um anos de idade. Havia vinte apartamentos, quatro por andar, e na minha memória era um edifício cheio de mulheres. Mal me lembro dos homens. Eles estavam por toda parte, lógico — maridos, pais, irmãos -, mas só me lembro das mulheres. (…) E eu a garota que crescia no meio delas, moldada à sua imagem — as absorvia como se fossem clorofórmio impregnando um pedaço de pano pressionado contra meu rosto. Foram necessários trinta anos para entender até que ponto eu as compreendia”.

São as mulheres da família, as vizinhas, as amigas, são elas que permeiam as lembranças, elas que invocam o passado e predizem o futuro. Trinta anos separam o passado e o presente no livro e a ferocidade de tudo o que Gornick viveu, tudo aquilo que a distancia dessas mulheres é ao mesmo tempo o que a aproxima. Perceber esse fato e lidar com o incomodo que isso traz parece confortar Vivian que não consegue se desvencilhar completamente. Por mais que o processo de negar as raízes para escrever o futuro seja uma necessidade, encontrar o que remanesceu traz o conforto do que é conhecido como lar. A questão que fica é: o quanto precisamos nos afastar para recriar uma experiência no feminino? E depois da distância, o quanto das mulheres que conhecemos permanece em nós? Ou: o quanto podemos nos deslocar sem perder os nossos primeiros referenciais?

Vivian Gornick (Nova York, 1935) é crítica, ensaísta, jornalista e memorialista feminista radical estadunidense. Cobriu os anos 70 no lendário The Village Voice. Tem 15 livros publicados, inclusive a continuação de Afetos Ferozes: The Odd Woman and the City (A Mulher Singular e a Cidade, ainda sem tradução no Brasil). A autora ainda não foi traduzida em Portugal.

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